Aniversário

"É no silêncio
Que melhor ludibrio a morte

Não
Já não me prendo a nada
Mantenho-me suspenso neste fim de século
Reaprendo os dias para a eternidade
Porque onde termina o corpo deve começar
Outra coisa outro corpo

Ouço o rumor do vento
Vai
Alma vai
Até onde quiseres ir"
(Al Berto)

eu ficarei aqui, onde a tua saudade - P. - faz o corpo doer, apenas com aqueles que ainda estão

Amigo

Como aprendeste a descobrir-te
A conhecer e a controlar o teu corpo
Brincas com o teu pião
Ainda hoje – lúcido – impagável!
Longe de seres apenas um intelectual
Encontras um jardim numa rosa.
És tão puro e imprevisível
Meu querido filho do mar e do azul
Que sob o céu a tua beleza alada
Continua a cobrir a minha noite.
És o menino – do pião – mais puro que conheço
E é uma graça ser teu amigo.
Agora que a doença te acolhe e
Como os bebés tenhas de aprender a não urinar na cama.
Ensinas-me a lançar a beleza serena do teu corpo à natureza.
Como és raro Z.

Amigos

Sei que todas as teorias são refutáveis e também não sei muitas outras coisas. Mas o tempo tem-nos demonstrado, com alguma ajuda do destino, que as amizades não se escolhem – acontecem – e mesmo que por vezes não as alimentemos como desejaríamos, elas energizam-se por si só. Há momentos que não a vemos ou escutamos, porque outros fenómenos a encobrem ou simplesmente são de outra dimensão, e outros há – como quando pensamos ou estamos com\no outro – em que a sua presença é tão física que o nosso corpo reage incontrolavelmente. Aqui a mente pode ser um obstáculo porque não se sente bem com as emoções. No entanto, e racionalmente, se este espaço de acção é ou foi necessário, devemos aprender com ele como se abríssemos uma porta ao mar e ele inundasse todo o nosso ser e estar. Assim, vamos sabendo coisas, vamos (re)definindo a presença e a localização dos amigos – tão necessários como outros elementos de sobrevivência.
Há os que têm o companheirismo e a poesia no sangue
e os que têm um mundo com outros horizontes
- tão subjectivo como as nossas particularidades -
Eu tenho o mar como companheiro e liberdade
Mais Natal - Puta que o pariu
P´ra frente p´ra trás
um pr'ali dois pr'acolá

"Merde d'Artist" - Piero Manzoni

be(ing) DADA

Vais mais devagar, a tragédia está a chegar ou então todos saberão que o sol amanhã volta outra vez e estarás estendido na natureza homem e mulher, merda, vai lá e vai devagar, já disse estendido, pim pam pum, vês o que te disse, eu sabia aquele sorriso vestido de branco atrás do verde, não é nenhuma comédia nem sátira é o tambor divino com sede de te compreender e agarrar como só um amante é capaz, corre, corre agora que o cão precisa de beber chá gelado, porque a luz arrefeceu, tira-lhe o lenço que parece ridículo e dá-lhe também de comer, agora posso pôr perfume às flores que começam a ficar assustadas e precisam de encontrar o caminho de volta às suas rotinas, foda-se, porque é que preciso de fazer isto, porque és alérgico ou porque é absurdo, como uma rainha que volta ao trono em cada baralho de cartas, muito bem, mas vou devagar tirar a dor.