Diálogos (o)cultos

MUDAR - Edson Marques

" Mude, mas comece devagar,
porque a direção é mais importante

que a velocidade.
Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.

Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas,
calmamente,

observando com atenção
os lugares por onde
você passa.

Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os teus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.

Tire uma tarde inteira
para passear livremente na praia,
ou no parque,
e ouvir o canto dos passarinhos.

Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas
e portas com a mão esquerda.

Durma no outro lado da cama...
depois, procure dormir em outras camas.

Assista a outros programas de tv,

compre outros jornais...
leia outros livros,
Viva outros romances.

Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.

Aprenda uma palavra nova por dia
numa outra língua.
Corrija a postura.

Coma um pouco menos,
escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores,
novas delícias.

Tente o novo todo dia.

o novo lado,
o novo método,
o novo sabor,
o novo jeito,
o novo prazer,
o novo amor.
a nova vida.


Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações."




(Ricardo Coacci)






O SENHOR HENRI - Gonçalo M. Tavares

"(...) é verdade que se um homem misturar absinto com a realidade fica com uma realidade melhor.
(...) mas também é certo que se um homem misturar absinto com a realidade fica com um absinto pior.
(...) muito cedo tomei as opções essenciais que há a tomar na vida – disse o senhor Henri.
(...) nunca misturei o absinto com a realidade para não piorar a qualidade do absinto."





(Ricardo Coacci)


O MUNDO É GRANDE - Carlos Drummond de Andrade

"O mundo é grande e cabe

nesta janela sobre o mar.

O mar é grande e cabe

na cama e no colchão de amar.

O amor é grande e cabe

no breve espaço de beijar."



(Ricardo Coacci)


ERAS NOVO AINDA - Al Berto

"eras novo ainda
mal sabia reconhecer os teus próprios erros
e o uso violento que de noite eu fazia deles

esta cama de minerais acesos
escrevo para despertar a fera de sol pelo corpo
escorrem aves de cuspo para a adolescência da boca
e junto ao mar existe ainda aquele lugar perdido
onde a memória te imobilizou

enumero as casas abandonadas ao sangue dos répteis
surpreendo-te quando me surpreendes
pela janela espio a paisagem destruída
e o coração triste dos pássaros treme

quando escrevo mar
o mar todo entra pela janela
onde debruço a noite do rosto tocado...me despeço"


(Ricardo Coacci)


A NAMORADA - Manoel de Barros

“Havia um muro alto entre nossas casas.
Difícil de mandar recado para ela.
Não havia e-mail.
O pai era uma onça.
A gente amarrava o bilhete numa pedra presa por
um cordão
E pinchava a pedra no quintal da casa dela.
Se a namorada respondesse pela mesma pedra
Era uma glória!
Mas por vezes o bilhete enganchava nos galhos da goiabeira
E então era agonia.
No tempo do onça era assim.”




(Ricardo Coacci)


MUROS - Domingos da Mota

“Vivemos a dois
passos, tão distantes, com
muros de silêncio

de permeio.
Os muros altos, farpados,
arrogantes.”






(Ricardo Coacci)


SABER VIVER - Cora Coralina

“Não sei... Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura... Enquanto durar
"




(Ricardo Coacci)


AMOR - Edward Bond

"As pessoas casam por amor

depois passam uma vida de escravidão para pagar a cama

acabam zangados e estúpidos com ódio do mundo

eles têm filhos para amar

depois amaldiçoam-nos e alguns deles partem os braços

o jogador dá as suas últimas libras a uma rapariga num beco e

depois pontapeia-a insensivelmente para as recuperar

o amor levou-os para o beco

não digam que o amor é mais puro do que aquilo

(...)

desde que consigam dizer 'amor torna-nos humanos' não

precisam de se preocupar em agir como humanos e limpar a

confusão

(...)

se um Deus fez o mundo pôs amor nesse mundo para que não

conseguíssemos torná-lo melhor e mostrar que não precisamos de

Deuses

bom se Deus fez o mundo espero que tenha lavado as mãos logo a seguir

aonde começou a loucura?

houve uma era de milagres (...)"





(Ricardo Coacci)



o ateísmo purificador

"Um caso de contraditórios verdadeiros. Deus existe, Deus não existe. Onde está o problema? Estou perfeitamente segura de que existe um Deus, no sentido em que estou perfeitamente segura de que o amor não é ilusório. Estou perfeitamente segura que não existe Deus, no sentido em que estou perfeitamente segura de que nada de real se parece com aquilo que posso conceber quando pronuncio esse nome. Mas o que não posso conceber não é uma ilusão. (...) Entre dois homens que não possuem a experiência de Deus, aquele que o nega talvez seja o que está mais próximo dele."
(Simone Weil)

Sem qualquer traição

"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.

Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele."

(Alberto Caeiro)

Desespero

Mas temos amigos, e palavras, mesmo que só pareçam pobres

O vento assusta-se com o corpo que me acompanha que não é sempre frio

Nunca foi, nem será, mas por vezes tenho de o colocar no frigorífico

[ou]

"Quando se ama, tudo é amor, mesmo a dor e a repulsa.
O raminho da árvore e a vidraça iluminada pela luz pálida da tarde transformaram-se numa vivência que descia ao mais fundo do seu ser e a que as palavras mal podiam dar expressão.
(...)
Os séculos ensinaram-lhe que os vícios se podem transformar em virtudes e as virtudes em vícios, e conclui que no essencial, só por inépcia se não consegue fazer de um criminoso um homem útil no tempo de uma vida."

(Robert Mussil)

ainda e por muito tempo

Johnny Guitar (1954)

Directed by: Nicholas Ray
Cast: Joan Crawford, Sterling Hayden, Mercedes McCambridge, Scott Brady, Ward Bond, Ben Cooper, Ernest Borgnine, John Carradine, Royal Dano, Frank Ferguson, Paul Fix, Rhys Williams

Vienna has built a saloon oustide of town, and she hopes to build her own town once the railroad is put through, but the townsfolk want her gone. When four men hold up a stagecoach and kill a man the town officials, led by Emma Small, come to the saloon to grab four of Vienna's friends, the Dancin' Kid and his men. Vienna stands strong against them, and is aided by the presence of an old acquaintance of hers, Johnny Guitar, who is not what he seems.

Johnny: De quantos homens te esqueceste?
Vienna: De tantos quantas as mulheres de que tu te lembraste.
Johnny: Não te vás embora.
Vienna: Não me mexi.
Johnny: Diz-me alguma coisa agradável.
Vienna: Claro. O que queres ouvir?
Johnny: Mente-me. Diz-me que esperaste [por mim] estes anos todos.
Vienna: Esperarei [por ti] estes anos todos.
Johnny: Diz-me que terias morrido se eu não tivesse voltado.
Vienna: Teria morrido se não tivesses voltado.
Johnny: Diz-me que ainda me amas como eu te amo.
Vienna: Ainda te amo como tu me amas.
Johnny: Obrigado. Muito obrigado.

(adaptação e diálogos de Philip Yordan, a partir do romance de Roy Chanslor)
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Peggy Lee - There´ll Be Another Spring