arte...
" A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos — vis porque são nossos e vis porque são vis.
O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono, e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela.
O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele.
Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso — o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo.

reinício

I just started walking
I had enough of this old town
had nothing else to do
It was one of those nights
you wonder how nobody died
we started talking
You didn't come here to have fun
you said: "well I just came for you"
But do you still love me?
do you feel the same
Do I have a chance
of doing that old dance
with someone I've been
pushing away
the very soul, the soul of what we were then
With the old schemes of shattered dreams
lying on the floor
You looked at me
no more than sympathy
my lies you have heard them
My stories you have laughed with
my clothes you have torn
do you feel the same
And do I have a chance
of doing that old dance again
Is it too late for some of that romance again
Let's go away, we'll never have the chance again
You want it again
More than I'm feeling
you'll never get
You've had a go at
all that you know
You lost that feeling
so come down and show
let accusations fly
like in that movie
You know the one where Martin Sheen
waves his arm to the girl on the street
I once told a friend
that nothing really ends
no one can prove it
So I'm asking you now
could it possibly be
that you still love me?
And do you feel the same
Do I have a chance
of doing that old dance again
Is it too late for some of that romance again
Let's go away, we'll never have the chance again
I take it all from you
I take it all from you
I take it all from you
I take it all from you"
Dos Poemas de SALOMÃO ROVEDO e das Imagens de SIGUR ROS
"O amor nunca pode ser
bonito desse jeito..."
Ana Maria Pedreira
"Sussurrante e soluçante,
como quem corta os pulsos.
Um trespassar de cores,
policromática miragem
do mais moderno tecnicolor,
O amor é esmaecido ou é
intenso, quando não se está
pensando nele – e tudo está bem.
O amor é lúbrico e déspota,
quando não se está fumando
– e tudo vai bem.
O amor é lírico e obsceno,
quando não se está bebendo,
– e se sente bem.
O amor é fatal e suicida,
quando não se cheira coca
– e todos, todos são bons.
derrama algum sangue,
impossível de registrar.
"E se quiseres, lembra-te;
Se quiseres, esquece."
Christina Rosseti
"Toda casa tem um passado.
Das janelas vislumbra-se as ruas.
É nas ruas que a vida perpassa.
Dentro da casa – móveis mortos.
Dentro da casa – fantasmas circulando
Dentro da casa esboroam ficção e sonho.
– É bom ficar atento!
11
“Fomos o frágil perdão e castigo,
um pouco do ser homem e mulher.”
Xênia Antunes
"Está próximo, bem próximo,
o lado inumano e humano
do mistério feérico.
Um microssinal, sublimado,
acende sensações latentes
e todo o ser estrala.
Desperta para o impasse,
o entrave de dúvidas,
questões inamovíveis.
A simples constatação de que
em nós perdura o rotundo,
– o inexplicável nada."
4
“É chegar e ao mesmo tempo ouvir,
saber entregar-se e chegar
mesmo tendo sempre que partir”.
Solange Sileikis
"Estrela-guia permite ao poeta
a magia da distância.
Permite ao amado
esse viver amado,
quase sempre adoidado
à distância.
Estrela-guia concede ao Nauta
o dom de estar no deserto
e longe te ver.
Permite ao cantor
sorver a luminosidade
distantes bilhões anos-luz.
Estrela-guia entrega ao errante
o menor amor, polígamo,
onírico, monógamo.
Permite ao solidário
sempre, eternamente,
a esperança,
sozinha e distante.
Estrela-guia devota ao Argonauta
o calor do aconchego:
para que não sofra
a decepção da frialdade.
Permite que pise teu solo
e não o desértico
solo da Lua, de Marte,
de Vênus, de Sírio.
2
“Um sol que vertia sangue
sobre o monte...”
Suzana Vargas
"Manhã suspiro, manhã vã, manhã
– em suicídios despedaço.
Dia ido, dia perdido, dia falido
– em fluidos me desiludo.
Tarde orca, arde tarde, tarde morta
– em compotas, desditosa.
Sol morto, sol posto, sol baço
– em pedaços, desperdício.
Noite lenta, asquerosa, gosmenta
– entre lençóis de cetim...
Madrugada alada, alva parada
– em chumbo desesperançado.
De manhã eu piro em vão, amanhã
– em suicídios de bala de aço.
2
“Venho sistematicamente
me estraçalhando
nos vidros da janela.”
Many Tabacinik
"Pouco mais que isso: poesia
de cortar os pulsos sem comoção.
Um canto mais deprimente
que heroína, mas que fala de amor.
A vida perfeitamente enojada:
viver parece nunca ter fim.
Na ausência ou na existência,
que importa? Desiludidamente.
É que depois a solidão torna
tudo demais pós-comoção.
Quem está pronto para ter o coração
partido de tristeza ainda mais?
A vida é um longo caminho
perdido entre poeira e asfalto.
Quem vai crucificar o sentimento
– esse podre coração de aço?
Quando se é jovem para sempre
toda vida é uma canção injusta."
3
“El alma vuela y vuela.”
Nicolás Guillén
"Pega minhas mãos frias e beija.
Meu peito sem hálito acaricia.
Fixa meus olhos baços lacrimejantes.
Exaure-me todo, toda a resistência.
Totalmente desequilibrado em pênsil arame.
Deforma-me com tuas mãos quentes de barro.
Quebra-me os ossos, guarda-os para ti.
Elabora um brinquedo desmontável.
Traz o brilho nauseante dos teus olhos.
Baixa minhas pálpebras deslustradas.
Apaga minha penúltima Luz!”
7
“Uma doce canção,
um beijo entra em mim
e dói meu coração.”
Claudia Pequeno
"Dizem que o coração não dói.
Imagino-o um feixe de músculo louco
movido a sangue que rega, bombeia,
contínua, tresloucadamente, o corpo todo.
E dói. Neste exato momento sinto
o pulmão imprensá-lo com seu fole
monstruoso contra algo – e esse terror
me tira o fôlego. Dói que nem respiro.
Sequer posso raciocinar com essa dor
que impede de deitar em decúbito:
Sento na poltrona e algum conforto
me diz que essa posição o agrada.
Mas o coração ainda dói e faz-me ver
os problemas, está me comunicando
as mil dificuldades que tem para cumprir
a função milagrosa de me manter vivo.
Semelha muito motor de velhos carros,
sofrendo encanecido para subir ladeiras
– geme, fumega, freme. E como dói,
parece me passar um recado clemente:
– Estou mal, diz choramingando, vou parar
a qualquer momento inexato, sem aviso.
Coração não mata (dizem), a morte advém
com o fim da atividade cerebral. Pois bem.
Que importa? Meu coração seguramente dói:
e quando cansado decidir parar de uma vez,
nem precisa dar sinal ou Aviso Prévio:
com ele irei também solenemente. De dor.”
8
“Senti no impulso de abrir os olhos o temor de
encontrar os dela.”
Bruna Lombardi
"Antes da travessia houvera o bom Deus
ceder-me uma vez só
o prazer de despertar a teu lado.
Uma vez só – não mais – deixa-me
exercitar o direito que o tempo
úbere despejou sobre nós dois.
Quando o dia inda plúmbeo
invadir de sombra gris
tua pele de areia e vier
turvar os lençóis alvos,
um dia só – nem mais,
queria a teu lado acordar,
ouvindo teu ressonar morno,
pacífico, amante, a suspirar sonhos.
Queria uma só vez aspirar
do teu corpo algáceo
o perfume de água do mar
nas manhãs de inverno.”
10
“estar assim,
de ponta a ponta esvaziado, quieto,
sem derrota de amor e de abandono.”
Vito Pentagna
"Viver sozinho é bom. Muito bom.
Desde que se viva longe da solidão.
Não. A solidão não é má companheira.
É boa a solidão sozinha.
É por causa das duas ânsias
de viver: Do jovem, quando
a vida se aproxima com
a velocidade da luz.
Do outro, para o qual ela
(senão a vida mesma),
vai se desfazendo passado,
ano-luz de velocidade.
O mundo está acabando?
Que se acabe o mundo!
– Estou infeliz...
A felicidade onde está?
Que se dane a felicidade!
– Estou na curva do oceano...
Abraçado à paixão,
não quero dela despojar-me.
Jamais. Lo que pasa es que
el mundo está borracho.”
13
“O controlador dos universos
deu-me o dom da vida.”
Márcio Catunda
"É como quero – faço o mundo.
É como faço – quero-o assim:
Aqui e agora, nem ontem,
quente e amigo, sem amanhã.
Frio e com a aspereza do aço.
O universo é salada de alface:
Limão, tomate, cebola e alho pisado.
E azeite bastante, como tu fazes.”
17
“A tua ausência é um abismo
à beira do qual a minha vida se debruça.”
Márcio Catunda
"Quanta senda tem teu corpo?
Quero saber por inteiro,
Desvendar o teu mistério,
Quero ser teu cavaleiro.
Quanta sarda tem tua pele?
Quero contar em anos-luz,
Navegar o teu espaço,
Espaçonavegar entre asteróides.
Quanta fenda tem teu corpo?
Quero mapear desfiladeiros,
Regressando àquele porto,
Enseado em teu regaço."
20
“Sálvenme de una vez
O dispárenme un tiro en la nuca.
No me gusta mirarme
En los espejos salpicados de sangre.”
Nicanor Parra
"Sim, crava as lupinas garras, em beijo
cinematográfico, mutila-me a face
e inunda de sangue tua sedenta goela.
Deixa escorrer, depois, o rubro mel
entre os lábios gelados, inquietantes,
horrendos, alucinantes, surrealistas.
Mas, para alcançar a salvação externa,
minha rainha, desiluso exijo explicação
pura sobre algumas doidas loucuras:
– Por que perder o ambicionado tesouro?
– E nos fazer gozar o desprazer antecipado?
– Por que possuir o amor indesejado?
– E nos fazer livres para o proibido?
(São clamores de magos e pajés
que não consigo compreender).

