“Feliz aquele que em noite assim tem um tecto por cima da cabeça, e um canto onde se aquecer” Eu sou uma gaivota… não, não é isso. O que é que eu estava a dizer? (…)
Há dois anos que não choro. Ontem, a altas horas, fui ver ao jardim se o nosso teatro ainda continuava de pé. E lá estava ele. Desatei a chorar pela primeira vez em dois anos, e foi como se uma bruma se dissipasse dentro de mim. Já não estou a chorar. (…)
Porque é que ele está a dizer aquilo? Porque é que ele está a dizer aquilo? (…)
Porque é que você diz que beija a terra que eu pisei? É preciso que me matem. Estou tão cansada! Se eu pudesse descansar… descansar! Eu sou uma gaivota… Não, não é isso.
(A Gaivota - Tchekov)
Paixão de trás para a frente
Solta-se um vento em cada olhar
Em cada pessoa que passa
E os passos ocupam o pensamento
Como o mar avança sobre a areia
Nenhuma gaivota morta se alimenta
Por de trás da janela
Revisitada pela letal intermitência da paixão
Brilha, outra vez, a cada sopro sanguíneo
Corre inquieto um vento emudecido
Entre os lábios do pecado e da paixão
Alimentado entre cada visita
Do silêncio ou da solidão

(Salvador Dali)
Em cada pessoa que passa
E os passos ocupam o pensamento
Como o mar avança sobre a areia
Nenhuma gaivota morta se alimenta
Por de trás da janela
Revisitada pela letal intermitência da paixão
Brilha, outra vez, a cada sopro sanguíneo
Corre inquieto um vento emudecido
Entre os lábios do pecado e da paixão
Alimentado entre cada visita
Do silêncio ou da solidão

(Salvador Dali)
valter hugo mãe (2)
o poeta como nu
um dia apareceu um poeta sem pétalas. nunca tal se viu
sem pétalas, dizia-se, estava igual a nu, coberto de nada
que o diferisse, como se ser poeta não trouxesse marcas à
flor da pele. algumas pessoas riram-se nervosamente, e só
por isso o estranho poeta se foi embora sem outra notícia

(blanka_sperkova)
um dia apareceu um poeta sem pétalas. nunca tal se viu
sem pétalas, dizia-se, estava igual a nu, coberto de nada
que o diferisse, como se ser poeta não trouxesse marcas à
flor da pele. algumas pessoas riram-se nervosamente, e só
por isso o estranho poeta se foi embora sem outra notícia

(blanka_sperkova)
valter hugo mãe
poema do homem sem quotidiano
era um homem sem quotidiano e nunca ninguém o viu
duas vezes, ao que se soubesse, ele dizia que não conhecia
quem era e não voltava para casa alguma. pelo caminho,
esquecia os caminhos sem remédio. muitas pessoas não
acreditavam que ele existisse e, quando o viram por uma
única vez, não lhe perguntaram nada de especial. deixaram-no
passar sem pensaram mais nisso. no fim da vida,
entre pensamentos, ocorria-lhes que teriam visto tal homem,
mas confundiam a memória do seu aspecto com a
dos forasteiros vulgares, assim, quando levavam as mãos
ao peito e rezavam por uma morte boa, achavam entre os
forasteiros uma estranha aura de santidade, como se, também
entre eles, tivesse caminhado um filho de deus ou um
simples anjo desbastado de asas
duas vezes, ao que se soubesse, ele dizia que não conhecia
quem era e não voltava para casa alguma. pelo caminho,
esquecia os caminhos sem remédio. muitas pessoas não
acreditavam que ele existisse e, quando o viram por uma
única vez, não lhe perguntaram nada de especial. deixaram-no
passar sem pensaram mais nisso. no fim da vida,
entre pensamentos, ocorria-lhes que teriam visto tal homem,
mas confundiam a memória do seu aspecto com a
dos forasteiros vulgares, assim, quando levavam as mãos
ao peito e rezavam por uma morte boa, achavam entre os
forasteiros uma estranha aura de santidade, como se, também
entre eles, tivesse caminhado um filho de deus ou um
simples anjo desbastado de asas
Igreja a que lhe falta um sino
Em terras medievais um dia o pároco cansado subiu aos sinos
E não mais saiu de lá até à Sua chegada
Todos pensaram falaram inventaram a sua fuga à terra
Todos os dias santos a população dirigiu-se à aldeia mais próxima
Para receberem as palavras de Deus
Todos os dias santos o pároco imaginava os seus fiéis
Um dia o acólito alérgico subiu aos sinos
E só saiu de lá quando conseguiu desprender o sino
Todos ajudaram tentaram forçaram a retirada do corpo que ficara aço
Enterraram-se os objectos sagrados na que se passaria a chamar
Igreja a que lhe falta um sino
E não mais saiu de lá até à Sua chegada
Todos pensaram falaram inventaram a sua fuga à terra
Todos os dias santos a população dirigiu-se à aldeia mais próxima
Para receberem as palavras de Deus
Todos os dias santos o pároco imaginava os seus fiéis
Um dia o acólito alérgico subiu aos sinos
E só saiu de lá quando conseguiu desprender o sino
Todos ajudaram tentaram forçaram a retirada do corpo que ficara aço
Enterraram-se os objectos sagrados na que se passaria a chamar
Igreja a que lhe falta um sino
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